ARTIGOS - INSA

Rosely Sayão
 

As dúvidas e escolhas cotidianas dos pais

 

Diariamente, os pais têm dúvidas a respeito de quais atitudes ou decisões tomar em relação aos filhos. O que eles querem saber -sempre- é o que seria o melhor. "Será que é colocar em uma escola de educação infantil pequena e depois transferir ou já matricular na escola na qual ele fará o ensino fundamental?". "Qual a idade para sair sozinho? E viajar com os amigos?". "Quanto tempo devo deixar meu filho ficar na internet?". "Ele quer trocar o modelo de celular por um mais novo. Já que eu posso fazer isso, será que devo?". "A violência da cidade está intensa. Devo ou não ensinar meu filho a usar transporte coletivo?". Esses são apenas alguns exemplos dos tipos de questão que os pais enfrentam no exercício cotidiano de sua tarefa educativa.


Não é preciso ter pressa nas decisões que os filhos demandam. Mais importante do que dizer sim ou não é saber para qual direção aponta a escolha


 

Por trás dessas interrogações há muita insegurança e falta de referências. Isso é bastante compreensível, pois o mundo tem mudado tão rapidamente que o tipo de educação que os pais tiveram -essa é a única experiência que eles conhecem- já não serve mais como norte. Além disso, fazer escolhas importantes várias vezes ao dia é bastante estressante. Mas não há outro caminho a seguir. A questão é: quais tipos de escolha os pais podem fazer?

Eles podem, por exemplo, escolher o caminho que permitirá ao filho se sentir satisfeito e feliz. Nada mais compreensível do que os pais ansiarem por ver -e tornar- a vida do filho agradável, não é mesmo? Ocorre que educar não é lá muito compatível com o ato de deixar o filho feliz; além disso, não é nem deve ser o objetivo da educação alcançar no presente essa finalidade. É preciso lembrar que, na ótica da criança ou do jovem, felicidade é o que lhe convém no momento, e educar é uma tarefa que visa o futuro. No cotidiano, os pais precisam reconhecer que mais importante do que ver o filho feliz no tempo presente é dar condições para que ele, ao alcançar a independência, seja capaz de buscar os caminhos na vida que lhe trarão a felicidade possível.

Outra possibilidade que os pais têm é a de fazer as escolhas que facilitarão a integração do filho ao grupo de seus pares, ou seja, que ele não fique isolado, excluído, que não escancare grandes diferenças diante dos colegas e amigos. O grande problema nessa escolha é que, para tanto, muitas vezes os pais precisam abrir mão de seus princípios, de seus valores e até de sua moral. E isso deixa o filho à margem do grupo familiar, sem relação de pertencimento com sua família.

Pertencer a um grupo familiar é algo que leva a grandes responsabilidades e deveres, e não apenas a desfrutes e direitos. Para que os filhos aprendam a se orgulhar de serem membros de sua família, apesar de ela ter limites e defeitos, e a se sentir responsáveis por continuar e melhorar a saga familiar à qual pertencem, eles precisam saber que família é essa que eles integram. E se os pais negociam princípios importantes da tradição familiar com o objetivo de fazer o filho ser igual à maioria de sua turma, os filhos não saberão qual é a da sua família, afinal. Novamente, cabe aos pais pensar no futuro muito mais do que no presente. Quando o filho for, ele mesmo, responsável e livre para fazer suas escolhas, é que ele terá chance de transformar a herança familiar que recebeu. Afinal, para se chegar a um novo caminho é preciso conhecer bem o local onde se está, não é verdade? Quem não sabe onde fica o norte, enfrenta muito mais obstáculos para localizar as outras direções.

As escolhas que os pais fazem no cotidiano da relação com os filhos são importantes para apontar o valor que dão ao futuro da humanidade e às virtudes pessoais que prezam. Por isso, não é preciso ter pressa nas decisões e escolhas que a tarefa educativa -e os filhos- demanda. Quem tem urgência de viver são os jovens; os pais não devem se deixar contaminar pela pressa deles. Mais importante do que dizer sim ou não, do que tomar esta ou aquela decisão, é saber para qual direção aponta a escolha que está sendo feita.

 

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha)

@ - roselysayao@folhasp.com.br